Richard Susskind: futuro da advocacia e tecnologia jurídica

Entenda Richard Susskind, tecnologia jurídica, novas profissões e como escritórios podem se preparar para a advocacia digital.

user Tiago Fachini calendar--v1 29 de março de 2022 connection-sync 21 de setembro de 2026

Richard Susskind é referência no estudo do futuro da advocacia, área em que tecnologia, acesso à Justiça e novos modelos de serviço convivem com o art. 133 da Constituição Federal de 1988 e o art. 2º da Lei 8.906/1994. Na prática, escritórios precisam redesenhar rotinas sem perder deveres éticos.

Desde a década de 1980, Susskind analisa como computadores, internet, inteligência artificial e plataformas digitais alteram a forma de produzir, distribuir e consumir serviços jurídicos. Sua previsão não parte de adivinhação, mas de observação de comportamento social, economia dos serviços profissionais e avanço tecnológico aplicado ao Direito.

O ponto central de sua obra é simples: nem todo problema jurídico exigirá, no futuro, atendimento artesanal de um advogado. Muitas demandas repetitivas podem migrar para sistemas, formulários inteligentes, resolução online de disputas, bases de conhecimento e equipes multidisciplinares. Isso não elimina a advocacia, mas muda seu papel.

No Brasil, essa discussão precisa considerar limites normativos. A Lei 8.906/1994 regula atos privativos da advocacia, o Código de Processo Civil, Lei 13.105/2015, disciplina prazos e atos processuais, e a Lei 11.419/2006 estrutura o processo eletrônico. Portanto, inovação jurídica exige tecnologia, governança e conformidade.

Quem é Richard Susskind?

Richard Susskind é jurista britânico, pesquisador, professor e autor especializado em tecnologia jurídica, inteligência artificial, tribunais online e transformação das profissões. Sua relevância decorre da capacidade de antecipar mudanças estruturais no mercado jurídico, especialmente a transição de serviços personalizados para soluções padronizadas, digitais e orientadas por dados.

Susskind é bacharel em Direito pela Universidade de Glasgow e doutor em Direito e computadores pela Universidade de Oxford. Ao longo da carreira, atuou como consultor de empresas, governos e instituições de Justiça, além de publicar obras que influenciaram debates sobre automação, acesso à Justiça e redesenho de serviços jurídicos.

Entre seus livros mais citados estão Expert Systems in Law, de 1987, The Future of Law, de 1996, The End of Lawyers?, de 2008, Tomorrow’s Lawyers, de 2013, The Future of the Professions, de 2015, escrito com Daniel Susskind, e Online Courts and the Future of Justice, de 2019.

A pergunta provocativa de Susskind não é se advogados deixarão de existir. A questão é quais atividades continuarão justificando trabalho humano especializado. Consultoria estratégica, negociação complexa, defesa penal, atuação em precedentes e tomada de decisão sensível tendem a exigir julgamento profissional. Já tarefas repetitivas podem ser decompostas, sistematizadas e apoiadas por tecnologia.

Como será o futuro da advocacia segundo Richard Susskind?

O futuro da advocacia segundo Richard Susskind será menos centrado em horas trabalhadas e mais orientado a resultados, prevenção de conflitos, automação e acesso digital à Justiça. Escritórios e departamentos jurídicos deverão combinar conhecimento técnico, tecnologia, análise de dados e desenho de processos para entregar serviços mais previsíveis.

Uma previsão de Susskind ganhou força durante a pandemia de Covid-19: a digitalização de atos jurídicos. Contudo, ele diferencia digitalizar o modelo antigo de transformar o sistema. Realizar audiências por videoconferência não basta quando petições, fluxos internos, triagem de demandas, gestão de provas e comunicação com clientes continuam desorganizados.

No Brasil, a transformação já possui bases normativas. A Lei 11.419/2006 autorizou a informatização do processo judicial. O CPC, Lei 13.105/2015, prevê a prática eletrônica de atos processuais, inclusive nos arts. 193 a 199. A Resolução CNJ 345/2020 criou o Juízo 100% Digital, e a Resolução CNJ 372/2021 instituiu o Balcão Virtual.

Outras mudanças ampliaram a agenda digital. A Lei 14.195/2021 fortaleceu a citação preferencialmente eletrônica ao alterar o CPC. A Resolução CNJ 455/2022 regulamentou o Domicílio Judicial Eletrônico, ferramenta que exige controle interno rigoroso, pois falhas de monitoramento podem gerar perda de prazos e revelia, conforme as consequências previstas no CPC.

Susskind também defende serviços jurídicos mais acessíveis. Plataformas de orientação, resolução online de disputas e documentos automatizados podem ajudar pessoas e empresas que não conseguem pagar atendimento tradicional. A cautela está em separar informação jurídica, automação documental e atos privativos de advocacia, conforme a Lei 8.906/1994.

Na área de dados, a LGPD, Lei 13.709/2018, impõe bases legais, segurança e governança ao tratamento de informações pessoais. O STF, na ADI 6387 MC-Ref/DF, em 2020, reconheceu a relevância constitucional da proteção de dados e da autodeterminação informativa, entendimento reforçado pela Emenda Constitucional 115/2022.

Quais profissões do futuro da advocacia Richard Susskind antecipa?

Richard Susskind antecipa um mercado jurídico formado por advogados, profissionais de tecnologia, gestores, analistas e especialistas em risco. A tendência não substitui toda atuação jurídica, mas redistribui tarefas: parte segue com advogados habilitados, parte migra para equipes híbridas que constroem sistemas, processos, métricas e soluções digitais.

O que fazem engenheiros jurídicos?

Os engenheiros jurídicos conectam lógica jurídica, fluxos de trabalho e tecnologia. Eles mapeiam documentos, transformam teses repetitivas em árvores de decisão, estruturam automações e ajudam escritórios a criar produtos jurídicos escaláveis sem violar sigilo profissional, ética ou regras processuais.

Um exemplo prático é a automação de contratos de prestação de serviços. O profissional identifica cláusulas variáveis, riscos recorrentes, aprovações necessárias e pontos sujeitos ao Código Civil, Lei 10.406/2002. Depois, estrutura perguntas para gerar minutas consistentes, com revisão humana nos casos de maior risco.

O que fazem tecnólogos jurídicos?

Tecnólogos jurídicos combinam noções de Direito, sistemas, segurança da informação e gestão da inovação. Eles selecionam softwares, integram bases processuais, criam painéis de indicadores e apoiam políticas de acesso. Em departamentos jurídicos, esse papel evita compras desconectadas da operação e reduz dependência de planilhas paralelas.

Esse profissional precisa dialogar com a LGPD, Lei 13.709/2018, porque sistemas jurídicos tratam dados pessoais de clientes, partes, testemunhas e colaboradores. Também precisa conhecer retenção documental, logs de acesso e segregação de permissões, já que incidentes podem gerar sanções administrativas e danos reputacionais.

O que fazem analistas de processos judiciais?

Analistas de processos judiciais organizam carteira, classificam ações, monitoram fases processuais e produzem relatórios para tomada de decisão. Eles não substituem a atuação técnica do advogado, mas entregam inteligência operacional: volume por matéria, risco por fase, valores envolvidos, prazos críticos e gargalos de produtividade.

Na prática, esse profissional acompanha prazos previstos no CPC, Lei 13.105/2015, como a contagem em dias úteis do art. 219. Também ajuda a controlar intimações eletrônicas, citação digital, depósitos judiciais, audiências e cumprimento de decisões, reduzindo risco de preclusão e falhas de comunicação com o cliente.

O que faz um gerente de projetos jurídicos?

O gerente de projetos jurídicos coordena entregas, cronogramas, responsáveis, custos e qualidade. Em uma operação de contencioso massificado, por exemplo, ele pode organizar a revisão de milhares de processos, distribuir atividades por perfil técnico, criar indicadores de SLA e garantir que a equipe priorize riscos relevantes.

Esse papel se aproxima de legal operations. Ele ajuda escritórios e departamentos a responder perguntas objetivas: quanto custa uma demanda, quais fases consomem mais tempo, quais contratos travam vendas e quais atividades poderiam ser padronizadas. A gestão deixa de ser intuitiva e passa a apoiar decisões mensuráveis.

O que fazem cientistas de dados jurídicos?

Cientistas de dados jurídicos trabalham com estatística, programação, bases processuais e visualização de informações. Eles identificam padrões em decisões, duração de processos, variação de condenações e comportamento de carteiras. A análise não garante resultado judicial, mas melhora estratégia, provisão financeira e prevenção de litígios.

O uso de inteligência artificial no Judiciário brasileiro deve observar a Resolução CNJ 332/2020, que trata de ética, transparência e governança. Em empresas, modelos preditivos também precisam respeitar a LGPD, especialmente princípios como finalidade, necessidade, segurança e prevenção, previstos no art. 6º da Lei 13.709/2018.

O que fazem especialistas em resolução de disputas online?

Especialistas em resolução de disputas online desenham canais digitais para prevenir, negociar e encerrar conflitos. Eles podem atuar em plataformas de consumo, mediação empresarial, conflitos condominiais, relações trabalhistas internas e disputas contratuais. O objetivo é reduzir litigiosidade sem afastar garantias processuais quando o Judiciário for necessário.

No Brasil, esse trabalho dialoga com o art. 3º, §§ 2º e 3º, do CPC, Lei 13.105/2015, que estimula solução consensual de conflitos. Também conversa com a Lei 13.140/2015, que regula a mediação, e com regras de proteção de dados quando a negociação ocorre em ambiente digital.

O que fazem gestores de riscos jurídicos?

Gestores de riscos jurídicos identificam, medem e tratam riscos contratuais, regulatórios, trabalhistas, societários e de privacidade. Eles realizam auditorias de compliance, revisam compromissos, acompanham obrigações legais e ajudam a empresa a prevenir sanções, perdas financeiras e litígios evitáveis.

Em programas de integridade, a atuação precisa observar a Lei 12.846/2013, conhecida como Lei Anticorrupção, e o Decreto 11.129/2022, que regulamenta critérios de avaliação desses programas. Em privacidade, o gestor também deve integrar controles exigidos pela LGPD e planos de resposta a incidentes.

O que fazem consultores de gestão jurídica?

Consultores de gestão jurídica apoiam escritórios que desejam operar como empresas de serviços profissionais. Eles revisam posicionamento, precificação, produtividade, atendimento, indicadores e tecnologia. O trabalho precisa respeitar o Estatuto da Advocacia, Lei 8.906/1994, e o Provimento 205/2021 da OAB sobre publicidade jurídica.

Como se preparar para o futuro da advocacia no Brasil?

Para se preparar para o futuro da advocacia no Brasil, escritórios e departamentos jurídicos devem diagnosticar processos, adotar tecnologia com governança, formar equipes multidisciplinares e revisar sua comunicação. A mudança deve ocorrer por etapas, com atenção a prazos processuais, sigilo profissional, proteção de dados e normas da OAB.

Como adotar modelos híbridos ou home office com segurança?

O trabalho remoto mostrou que a advocacia pode operar fora do escritório físico, mas exige método. O primeiro passo é mapear atividades: atendimento, peticionamento, controle de prazos, reuniões, faturamento e gestão documental. Depois, a banca define quais tarefas exigem presença, quais funcionam remotamente e quais dependem de sistemas integrados.

O segundo passo é proteger informação. Use autenticação multifator, permissões por perfil, backups, política de senhas, controle de dispositivos e registro de acessos. Como advogados lidam com sigilo profissional, dados sensíveis e documentos estratégicos, uma falha de segurança pode gerar dano ao cliente e responsabilidade ética.

O terceiro passo é padronizar comunicação. Canais dispersos aumentam risco de perda de intimações, decisões e documentos. Um software jurídico em nuvem pode centralizar processos, agenda, tarefas e relatórios, desde que o escritório valide segurança, disponibilidade, suporte, armazenamento e conformidade com a LGPD.

Como formar uma equipe multidisciplinar?

Richard Susskind sustenta que a prática jurídica será mais colaborativa. Para aplicar essa visão, o escritório pode começar contratando ou treinando perfis complementares: controller jurídico, analista de dados, profissional de tecnologia, gestor financeiro, especialista de marketing jurídico e responsável por privacidade.

A contratação deve partir de problemas concretos. Se a banca perde prazos, precisa fortalecer controle processual. Se não mede rentabilidade, precisa de gestão financeira. Se tem alto volume de contratos, pode criar automação documental. Se atende empresas reguladas, precisa de compliance, privacidade e gestão de riscos.

Também convém separar funções jurídicas e não jurídicas. Atos privativos seguem com advogados regularmente inscritos na OAB, conforme a Lei 8.906/1994. Profissionais de tecnologia e gestão podem estruturar sistemas, indicadores e processos, mas não devem oferecer consultoria jurídica sem habilitação profissional.

Como usar marketing de conteúdo sem violar regras da OAB?

O marketing de conteúdo jurídico pode educar o público, reduzir dúvidas repetitivas e tornar a comunicação mais clara. Porém, a estratégia deve seguir o Provimento 205/2021 da OAB, que permite publicidade informativa e veda mercantilização, promessa de resultado, captação indevida de clientela e divulgação de casos sigilosos.

Na prática, o escritório pode publicar artigos explicativos, guias, vídeos, newsletters e materiais sobre mudanças legislativas. O conteúdo deve informar, não pressionar contratação. Também deve evitar linguagem sensacionalista, comparação depreciativa com outros profissionais e exposição de decisões como garantia de sucesso em casos semelhantes.

Um bom procedimento envolve quatro etapas: escolher dúvidas reais dos clientes, checar legislação e jurisprudência, revisar o texto por advogado responsável e registrar data de atualização. Em temas sujeitos a mudanças, como tributário, trabalhista e proteção de dados, esse controle evita conteúdo desatualizado e reduz risco reputacional.

O que Richard Susskind defende em Upgrading Justice?

Em Upgrading Justice, palestra de 2017, Richard Susskind defende que a Justiça precisa ser redesenhada para atender melhor cidadãos e empresas. A proposta não se limita a trocar papel por tela, mas a criar sistemas que previnam disputas, orientem usuários e resolvam conflitos de forma mais acessível.

A ideia dialoga com sua obra posterior sobre tribunais online. Para Susskind, o sistema tradicional foi construído para um mundo presencial, caro e dependente de especialistas. A tecnologia permite criar camadas: informação jurídica confiável, diagnóstico inicial, negociação assistida, mediação online e decisão judicial quando as etapas anteriores não resolvem o conflito.

No Brasil, iniciativas como processo eletrônico, Juízo 100% Digital, balcões virtuais e domicílio judicial eletrônico mostram avanço institucional. Ainda assim, a transformação exige inclusão digital, linguagem simples, segurança da informação, acessibilidade e treinamento. Sem esses elementos, a digitalização pode apenas transferir barreiras do balcão físico para a tela.

Perguntas frequentes sobre Richard Susskind

Quem é Richard Susskind?

Richard Susskind é jurista britânico, pesquisador e autor especializado em tecnologia jurídica, tribunais online e futuro das profissões. Ele ficou conhecido por prever mudanças na advocacia antes da popularização da internet, defendendo que serviços jurídicos devem combinar conhecimento técnico, automação, dados e acesso mais amplo à Justiça.

O que Richard Susskind prevê para a advocacia?

Richard Susskind prevê que a advocacia será menos dependente de tarefas artesanais e mais apoiada por sistemas, equipes multidisciplinares e serviços padronizados. Advogados continuarão relevantes em decisões complexas, estratégia, negociação e defesa técnica, enquanto atividades repetitivas tendem a migrar para automação e fluxos digitais.

A tecnologia vai substituir advogados?

Richard Susskind não afirma que toda advocacia será substituída. A tecnologia tende a substituir tarefas, não necessariamente profissionais. Petições repetitivas, triagens, documentos simples e relatórios podem ser automatizados, mas interpretação jurídica, responsabilidade técnica, ética, negociação sensível e atuação judicial estratégica continuam exigindo profissionais qualificados.

Quais profissões jurídicas devem crescer?

Richard Susskind aponta espaço para engenheiros jurídicos, tecnólogos jurídicos, analistas de processos, gerentes de projetos, cientistas de dados jurídicos, especialistas em resolução online de disputas e gestores de riscos. Essas funções conectam Direito, tecnologia, gestão e dados para melhorar produtividade, prevenção e tomada de decisão.

Como um escritório pequeno pode se preparar?

Richard Susskind inspira escritórios pequenos a começar por diagnóstico simples: mapear prazos, documentos, atendimento e finanças. Depois, a banca pode adotar software jurídico, padronizar contratos, criar indicadores, revisar segurança da informação e produzir conteúdo informativo compatível com o Provimento 205/2021 da OAB.

Qual é a relação entre Richard Susskind e tribunais online?

Richard Susskind defende tribunais online como uma forma de ampliar acesso à Justiça e resolver conflitos por etapas digitais. A proposta inclui informação, triagem, negociação, mediação e decisão. No Brasil, iniciativas do CNJ aproximam essa visão, mas exigem inclusão digital, segurança e desenho adequado de serviços.

Qual é a principal lição de Richard Susskind para o mercado jurídico?

A principal lição de Richard Susskind é que o mercado jurídico deve abandonar a ideia de que tradição e inovação são incompatíveis. A advocacia continua protegida por normas constitucionais, legais e éticas, mas precisa entregar serviços com mais clareza, eficiência, prevenção e capacidade de adaptação tecnológica.

Para escritórios e departamentos jurídicos, o caminho mais seguro não é aderir a qualquer ferramenta nova. O procedimento recomendado envolve mapear problemas, escolher prioridades, testar soluções, treinar pessoas, medir resultados e revisar riscos jurídicos. Assim, a inovação deixa de ser discurso e passa a integrar a operação.

Richard Susskind ajuda a formular uma pergunta estratégica: quais atividades realmente exigem um advogado e quais podem ser melhor resolvidas por processos, dados ou tecnologia? Quem responder com seriedade poderá construir uma advocacia mais preparada, acessível e alinhada às exigências jurídicas do Brasil.

Tiago Fachini - Especialista em marketing jurídico

Mais de 300 mil ouvidas no JurisCast. Mais de 1.200 artigos publicados no blog Jurídico de Resultados. Especialista em Marketing Jurídico. Palestrante, professor e um apaixonado por um mundo jurídico cada vez mais inteligente e eficiente. Siga @tiagofachini no Youtube, Instagram e Linkedin.

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